Avião apreendido com cocaína cai anos depois e mata três em MT - Resenha crítica - 12min Originals
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Avião apreendido com cocaína cai anos depois e mata três em MT - resenha crítica

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Editora: 12min

Resenha crítica

O prefixo é a identidade do avião

Toda aeronave tem um prefixo: um código alfanumérico que funciona como a placa de carro ou o RG do avião, identificando de forma única sua nacionalidade e seu registro oficial no mundo. É por ele que se sabe de onde a máquina veio, quem responde por ela e qual é o seu histórico.

No Brasil, quem mantém esse registro é a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). Um avião que voa sem constar ali é, na prática, um avião sem identidade reconhecida pelo órgão que deveria acompanhá-lo. E foi exatamente o prefixo, lido nos destroços queimados, que transformou um acidente aéreo em zona rural numa história bem mais complicada.

O que se sabe sobre a queda em Água Boa

Um avião de pequeno porte caiu na manhã de uma quinta-feira, dia 10, em uma área de mata na zona rural de Água Boa, em Mato Grosso, a cerca de 20 quilômetros da área urbana do município. As três pessoas que estavam a bordo morreram.

A ocorrência foi registrada por volta das 8h30. O Corpo de Bombeiros Militar foi acionado às 8h49, segundo a CNN Brasil, e equipes da Polícia Militar isolaram a área enquanto os bombeiros combatiam as chamas. Em nota, o Corpo de Bombeiros informou ter feito o combate direto ao fogo até a completa extinção do incêndio, usando aproximadamente 4.000 litros de água. Depois da fase de rescaldo, os três corpos carbonizados foram localizados nos destroços.

O delegado Carlos Alberto, responsável pela ocorrência, afirmou que, pelas condições da aeronave, não havia sobreviventes. A Polícia Civil informou que as vítimas não puderam ser identificadas em razão das condições do local e da intensidade do incêndio, que consumiu praticamente toda a aeronave. Em vídeo gravado no local, é possível ver o avião destruído pelo fogo.

Um avião sem registro e sem plano de voo

O estado da aeronave também impediu, inicialmente, a própria identificação dela. "O estado em que a aeronave foi encontrada impossibilitou, inicialmente, sua identificação. Por esse motivo, não foi possível, até o momento, confirmar informações sobre eventual plano de voo, local de origem ou destino da aeronave, tampouco a identidade das pessoas que estavam a bordo", disse o delegado.

Depois disso, a Polícia Civil de Mato Grosso informou que o avião é um Cessna de prefixo N401NA, e que ele não tem registro na Anac. Segundo o delegado, a aeronave teria saído de um aeródromo de Goiânia, mas não foi possível identificar o destino previsto: não havia plano de voo registrado.

São duas ausências que se somam. Sem registro na agência reguladora e sem plano de voo, o avião estava no ar sem que houvesse, no papel, um responsável formal por ele nem uma rota declarada às autoridades. Foi o prefixo, apesar de tudo, que sobreviveu à identificação e abriu a segunda camada do caso.

O passado do prefixo N401NA

O mesmo prefixo aparece em um caso de 2017. Naquele ano, uma aeronave norte-americana de prefixo N401NA foi apreendida pela Polícia Federal em Goiânia, com cocaína escondida no assoalho. Dois irmãos gêmeos espanhóis, de 57 anos, foram presos.

A investigação começou depois de uma denúncia anônima sobre o hangar onde o avião foi encontrado, em um aeródromo às margens da rodovia GO-070. Segundo as equipes, os estrangeiros entraram no hangar durante a noite. Também havia cocaína escondida na asa da aeronave. Em nota, à época, a Anac informou que o avião tinha permissão para entrada no Brasil, e que a última autorização de voo havia sido expedida no dia 26 de outubro, com plano de voo para Goiânia.

Em dezembro de 2023, a mesma aeronave, avaliada em 180 mil reais, foi levada a leilão eletrônico, como parte de um processo relacionado à apreensão de bens em investigação de tráfico de drogas.

É esse encadeamento que dá a dimensão do caso e que o g1 reuniu na reportagem que ligou os dois episódios: uma aeronave apreendida com droga, levada a leilão dentro de um processo de tráfico e que, anos depois, aparece caída em Mato Grosso, sem registro na Anac e sem plano de voo, com três mortos a bordo.

A investigação que começa agora

A área foi isolada para o trabalho da Perícia Oficial e Identificação Técnica (Politec) e da Polícia Civil. O Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), órgão responsável por apurar acidentes aéreos, foi comunicado e deverá participar dos trabalhos periciais complementares junto com os demais órgãos encarregados da investigação.

A Polícia Civil afirmou que as circunstâncias da queda, a identificação da aeronave e das vítimas deverão ser esclarecidas ao longo das investigações. Até a última atualização das reportagens, as vítimas seguiam sem identificação, e a origem e o destino do voo não haviam sido confirmados. O que existe, por enquanto, é a versão preliminar do delegado sobre a saída de um aeródromo de Goiânia.

O que se sabe, e o que ainda falta descobrir

Está estabelecido que três pessoas morreram na queda de um Cessna em área rural de Água Boa, na manhã do dia 10, e que o incêndio destruiu quase toda a aeronave. Está estabelecido que o avião tem prefixo N401NA, não consta no registro da Anac e voava sem plano de voo. Está estabelecido que uma aeronave com esse mesmo prefixo foi apreendida em 2017 em Goiânia com cocaína no assoalho e na asa, que dois gêmeos espanhóis foram presos no caso, e que em dezembro de 2023 ela foi a leilão eletrônico dentro de um processo de apreensão de bens ligado ao tráfico.

Falta descobrir quem eram as três pessoas a bordo, resposta que depende da perícia da Politec sobre corpos carbonizados. Falta confirmar de onde o avião saiu de fato e para onde ia, já que não havia rota declarada. Falta saber a causa da queda, tarefa do Cenipa. E falta a pergunta que atravessa tudo: como uma aeronave com esse histórico, sem registro no órgão regulador brasileiro, voltou a operar até o dia do acidente.

Para quem quiser acompanhar, os próximos passos concretos são os boletins da Polícia Civil de Mato Grosso e da Politec sobre a identificação das vítimas, e o trabalho do Cenipa sobre as circunstâncias do acidente. Vale observar se as investigações vão detalhar o que houve com a aeronave entre o leilão de 2023 e a queda, e se a Anac vai se manifestar sobre a situação de registro do avião, como fez em 2017 ao explicar publicamente a autorização de entrada dele no país. Enquanto a identificação das vítimas não sai, qualquer versão sobre quem estava a bordo e sobre a finalidade do voo é especulação. O que o caso já tem de verificável é uma linha do tempo que começa numa apreensão de drogas e termina em três mortes, com um mesmo código de identificação ligando as duas pontas.

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